O futuro da religião – sinopse por Santiago Zabala

Ilustração de múltiplas trajetórias - Ilusão - M.C Escher

Na filosofia contemporânea, Richard Rorty “representa o pós-empirismo de caráter pragmático dos Estados Unidos” e Gianni Vattimo “o endereço pós-moderno da Europa Latina”.

Ambos retomam do neopragmatismo de John Dewey e da hermenêutica de Hans-Georg Gadamer não somente a crítica da autocompreensão objetiva das ciências humanas, mas também o conceito de cultura (Bildung). O próprio Rorty nos diz que “em uma cultura gadameriana do futuro, os seres humanos desejariam se adequar apenas um ao outro, no sentido em que Galileu adequou-se a Aristóteles, Blake a Milton, Dalton a Lucrécio e Nietzsche a Sócrates. A relação entre predecessor e sucessor seria concebida, como destacou Vattimo, não como uma relação de Uberwindung (superação) mas de Verwindung (distorção)”.

Já que o peso exercido historicamente pela figura de Deus não pode ser eliminado do gesto desconstrutivo da filosofia, melhor vale aceitar sua influência histórica e reconsiderar sua presença com a devida ironia. Rorty e Vattimo partem do fato de que, antes do Iluminismo, a humanidade tinha deveres para com Deus, enquanto depois do Iluminismo ela passou a tê-los para com a Razão. Tanto a “idade da Fé” quanto a “idade da Razão” percorreram, contudo, o caminho errado, não porque não conseguiram se apropriar da verdadeira natureza das coisas, mas porque não se deram conta da relevância daquelas novas formas de vida que a própria humanidade havia produzido nesse meio-tempo, tendo em vista uma maior felicidade. Neste livro, Rorty e Vattimo partem da constatação de que a humanidade entrou “na idade da Interpretação”, na qual o pensamento é dominado por preocupações que não são pertinentes apenas à ciência, apenas à filosofia ou apenas à religião.

A nova cultura do diálogo inaugurada por Rorty e Vattimo nos convida a seguir, de um lado, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Jacques Derrida em sua drástica desconstrução da metafísica da presença e, do outro, John Dewey, Benedetto Croce e Hans-Georg Gadamer em sua superação desta mesma metafísica. A diferença entre os dois grupos é antes uma questão de temperamento e de ênfase do que de doutrina. O que os une é, de fato, a convicção de que as interrogações filosóficas sobre “ser e nada”, sobre “linguagem e realidade”, sobre “Deus e a sua existência” são inúteis, pois pressupõem que a filosofia pode ser exercida independentemente da história e que o exame do nosso modo de proceder atual pode nos dar uma compreensão da “estrutura” de todos os possíveis modos humanos de proceder. Para todos esses filósofos, a objetividade é uma questão de “consenso lingüístico intersubjetivo” entre seres humanos e não de representação acurada de algo que transcende o âmbito humano. A última barreira da pesquisa depois do fim da metafísica já não é mais o contato com algo que existe independentemente de nós, mas tão-somente a Bildung (educação padronizada – Escola de Frankfurt), a sempre inconclusa formação de si.

Essa renovação de filosofia através da ultrapassagem da metafísica obteve um êxito no âmbito da linguagem na idéia de que o a priori (pensamento dedutivo) lingüístico é a forma de estruturação da nossa experiência. Se essa experiência é essencialmente lingüística e a nossa existência essencialmente histórica, então não há maneira de ultrapassar a linguagem e alcançar o “todo” como realidade. Uma passagem de situação histórica para uma condição sem história tornou-se impossível em razão de própria linguagem, que se desenvolve sempre no terreno da interpretação, no qual não existem, propriamente, outros fatos além dos fatos linguísticos. “O sentido ontológico da hermenêutica”, diz Vattimo, “não é, portanto, aquele de teorizar genericamente a finitude da existência, respeitando os direitos do “real”, mas de anular, como duvidosos, esses pretensos direitos e propor um repensamento radical da própria noção de realidade”.

Segundo Rorty e Vattimo, a hermenêutica não apenas impede que o espaço cultural aberto pelo fim da metafísica seja preenchido por uma “outra filosofia fundacional”, mas sobretudo que o limite último da pesquisa filosófica venha a ser, mais uma vez, o contato com algo que existe independentemente de nós mesmos.

A palavra “desconstrução” mede toda a estratificação da nossa tradição metafísica. Essa desconstrução, operada principalmente por Nietzsche, heidegger e Derrida, consistiu sobretudo em repercorrer destrutivamente a história da ontologia tradicional, vale dizer, a historia daquela concepção, comum à metafísica ocidental de Parmênides a Nietzsche, que identifica o ser com os entes. Essa desconstrução implica uma anamnese (recuperação da memória) especulativa da história do pensamento que não visa relativizar as várias concepções de ser referindo-se às concepções históricas em que nasceram, mas pinçar entre elas um fio condutor comum que Heidegger chamou de história ou destino do ser. Essa desconstrução de verdade como evidência intuitiva representa antes de mais nada o fim do logocentrismo, ou seja, o fim do privilégio concedido pelo pensamento metafísico à presença e à voz como encarnações do lógos capaz de tornar o ser disponível para um sujeito finito. No curso dessa tradição desconstrutiva da metafísica, sempre se evocou uma espécie de suspensão do juízo, de epokhè (Suspensão do juízo), que deixa a humanidade sem indicações e acaba por idealizar uma situação irrealizável.

Mas quais são, segundo Rorty e Vattimo, os acontecimentos históricos que contribuíram para a desconstrução da metafísica? A Revolução Francesa (solidariedade), o cristianismo (caridade) e o romantismo (ironia). Graças a esses três acontecimentos, o progresso espiritual do homem consistiu principalmente na criação de um “eu” maior, mais livre e, sobretudo, sem o medo de perder a própria identidade de origem. É mérito de Dewey ter explicado que “só atingiremos a maturidade política no momento em que conseguirmos dispensar qualquer cultura metafísica, qualquer cultura que creia em poderes e forças não-humanas”. Somente depois da Revolução Francesa, os seres humanos aprenderam a confiar cada vez mais em suas próprias forças. Dewey chamava a religião que ensina o homem a confiar-se a si mesmo de “religião do amor” (que é exatamente o contrário de uma “religião do medo”), pois é quase impossível distingui-la da condição do cidadão que participa concretamente da democracia.

Fonte: Veja On line

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