SpaceX – a primeira Nave privada de transporte espacial faz seu primeiro voo com sucesso

Lançamento nos EUA: o Falcon 9 (foto) partiu da base da Nasa, de Cabo Canaveral

Próximas viagens ainda serão feitas sem tripulação, mas cápsula está preparada para levar até sete pessoas.

Na quarta-feira dia 08/12/2010, pela primeira vez, uma espaçonave comercial entrou em órbita e retornou suavemente à Terra. O voo, conduzido pela Space Exploration Technologies Corp., ou SpaceX, foi impecável, desde o lançamento de seu foguete Falcon 9, com uma cápsula Dragon no topo, às 13h43 (de Brasília), do Cabo Canaveral, até a descida da Dragon no Oceano Pacífico 3 horas, 19 minutos e 52 segundos depois. Foi um atraso de apenas 52 segundos em relação ao previsto pela SpaceX.

Durante a entrevista coletiva que ocorreu depois, Elon Musk, fundador da SpaceX e seu principal executivo, cuja desmedida confiança pode beirar a arrogância, se afobou ao falar que funcionou como previsto. “Na verdade, é quase bom demais”, disse Musk. “Não tivemos de usar os sistemas de segurança em nenhum momento. Estou em estado de semi-choque. É difícil ser articulado com a mente pegando fogo.”

Passeio agradável — A missão foi a primeira demonstração para a Nasa da nave espacial projetada para transportar carga e, talvez, astronautas à Estação Espacial Internacional.

Capsula Dragon

Musk afirmou que o SpaceX estava em boa situação para conquistar pelo menos parte do negócio de transporte de astronautas. A Dragon já tem uma cabine pressurizada e foi projetada, desde o princípio, com a intenção de levar pessoas. “Se tivéssemos pessoas sentadas na cápsula Dragon, elas teriam feito um passeio muito agradável”, disse ele.

Façanha — Nove minutos e meio depois do lançamento de quarta-feira, a cápsula Dragon destacou-se do segundo estágio do Falcon 9. A cápsula circundou a Terra duas vezes a uma altitude de 300 quilômetros antes de reentrar na atmosfera. Com ajuda de paraquedas, a nave desacelerou suavemente até pousar a cerca de 800 quilômetros da costa mexicana.

A façanha impressionou Joseph Fragola, especialista em segurança de naves espaciais, que não tinha certeza de que lançamentos comerciais pudessem atender aos mesmos padrões da Nasa.

“Eu esperava pelo menos algumas anomalias, mas até agora parece não ter ocorrido nenhuma”, disse Fragola sobre o voo da quarta-feira. “Isso foi uma surpresa, dado o desafio do plano de voo.”

Durante o voo, a SpaceX anunciou que o Falcon 9 também levou para o espaço oito pequenos satélites, incluindo um do Exército para testar novas tecnologias de comunicação.

Visita à ISS — Um segundo voo de demonstração, que vai passar perto da Estação Espacial, mas sem acoplar, está agendado para a próxima primavera. Um terceiro e último voo de demonstração vai conectar a cápsula à estação.

Com o sucesso do primeiro voo, disse Musk, a SpaceX espera combinar os dois próximos lançamentos. Uma vez completa a fase de demonstração, a SpaceX começará com os voos de carga.

No final da entrevista coletiva, Musk recuperou parte de sua bravata habitual, arriscando que a Dragon também poderá ser utilizado em missões no espaço profundo. Um renovado programa espacial da Nasa, que irá valer a partir do ano que vem, vai trabalhar numa maior e muito mais cara cápsula tripulada Orion e na continuação do desenvolvimento de um foguete de carga para chegar à Lua, a um asteróide ou além. “A Dragon tem mais capacidade que a Orion”, disse Musk. “Basicamente, qualquer coisa que a Orion possa fazer, a Dragon também pode.”

Contrato bilionário — A SpaceX tem um contrato de 1,6 bilhão de dólares para 12 voos de carga e suprimentos para a Estação Espacial. O programa começou em 2006. Com o iminente cancelamento do foguete Ares I, da Nasa, que levaria astronautas para a estação, a agência espacial busca companhias privadas para prestar serviços de transporte dos astronautas.

O sucesso do voo de demonstração “reforça o que o presidente estabeleceu e o Congresso endossou para o futuro do transporte espacial”, disse Lori Garver, administrador-adjunto da Nasa. “Isso realmente valida o caminho que trilhamos.”

Quem é Elon Musk?

Elon Musk

Há oito anos, o empresário Elon Musk havia acabado de vender sua segunda e bem sucedida companhia de tecnologia, tinha US$ 200 milhões na conta e, com apenas 31 anos de idade, a vida inteira pela frente. Poderia muito bem ter se aposentado e dedicado seus dias a gastar a fortuna acumulada. Mas Elon Musk, que nasceu na África do Sul e se radicou nos Estados Unidos, tinha planos mais ambiciosos. Ele queria salvar o mundo, convencendo a nação que mais consome petróleo no planeta a adotar energias renováveis.

O primeiro passo de Musk foi abrir seus cofres e injetar milhões de dólares na criação da Tesla Motors, especializada em carros elétricos de luxo, em 2004. Um ano depois, deu início à SolarCity, um negócio de instalação de painéis solares, em todo os EUA. E talvez prevendo que no futuro a única saída seja mesmo mudar de planeta, fundou uma empresa para fabricar foguetes espaciais reaproveitáveis. Hoje, é o presidente da única companhia privada do mundo que conseguiu colocar um foguete impulsionado por combustível líquido em órbita: a Space Exploration Technologies, ou Space X.

Os feitos de Musk, jovem, empreendedor, sempre bem alinhado, foram a inspiração que Jon Favreau, diretor dos filmes Homem de Ferro 1 e 2, precisava para caracterizar o protagonista Tony Stark, um biolionário aventureiro interpretado no cinema pelo ator Robert Downey Jr. Jogador de vídeo game e surfista nas horas vagas, Elon Musk chega a trabalhar em média 100 horas por semana. O aniversário dele foi há duas semanas. O melhor presente que ganhou? Tempo. Passou a última semana em Búzios, no Rio de Janeiro, para visitar um primo que é casado com uma brasileira — em uma das raras vezes que tirou uma folga. Musk possui cinco filhos com a ex-mulher, a escritora canadense Justine Musk, e está noivo da atriz inglesa Talulah Riley, 25 anos.

De volta ao trabalho, além da pretensão de mudar os hábitos de uma civilização dependente de combustível fóssil, Musk está gastando milhões do próprio bolso para garantir que, em breve, os terráqueos possam viver em outros planetas. Enquanto as previsões mais otimistas da NASA indiquem que só iremos lançar uma missão tripulada para Marte daqui a 30 anos, Musk diz realizar a façanha em dez. “Trinta anos é uma eternidade”, afirmou, em entrevista à VEJA.com. Suas declarações não são vazias. A Space X, que tem apenas sete anos de vida, já conseguiu um contrato para transportar carga da NASA para, pelo menos, 13 voos futuros ao espaço — utilizando um foguete construído do zero, com tecnologia 100% original.

Por que a humanidade está demorando tanto para adotar fontes de energia renováveis?

Acho que estamos indo nessa direção. Acontece que o petróleo é muito fácil. É como se tivéssemos recebido uma herança de algum tio rico. É mais fácil do que trabalhar. Como somos muito preguiçosos, é mais fácil manter a tecnologia atual e fazer a mudança apenas quando realmente tivermos a necessidade. Ou seja, até que o dinheiro do nosso tio acabe. É isso que estamos tentando fazer com a Tesla Motors — acelerar as coisas para que esse progresso ocorra mais rápido do que se imaginava.

Mas a Tesla Motors não conseguiu lucrar um centavo desde a sua inauguração em 2003…
Bom, tecnicamente tivemos lucro no mês de julho do ano passado, mas não nos quatro primeiros meses. A razão pela qual Tesla não é lucrativa é que estamos crescendo muito rápido. Estamos planejando aumentar nossa produção em 4000%. É muito difícil se manter lucrativo quando se tem esse tipo de crescimento. Se as nossas atividades estivessem restritas apenas à venda do nosso carro esportivo, o Roadster, e à venda de componentes automotivos para a Toyota, seríamos lucrativos. Mas a empresa está gastando muito em pesquisa e desenvolvimento do modelo sedã, que será mais barato. Quantas empresas estão crescendo a 4000% em 2 ou 3 anos? Quase nenhuma.

Por que é tão difícil fazer carros elétricos populares?

Existem duas coisas importantes que é preciso saber para fazer uma nova tecnologia acessível. A primeira é que é preciso otimizá-la. Normalmente ela precisa passar por três grandes versões antes de ficar pronta para o mercado. A primeira versão é fazer a tecnologia funcionar de fato. A segunda é levar o projeto adiante otimizando o custo, e só na terceira é que as coisas são refinadas. E a segunda coisa que precisamos para fazer uma tecnologia acessível é a economia de escala. Ou seja, fazer 100.000 unidades de uma coisa é muito mais barato do que fazer 1.000 unidades. Essa é a estratégia da Tesla. Começamos com um carro caro e com poucas unidades. Entendemos a tecnologia e o que os clientes querem. A partir daí, ganhamos o direito de levantar mais capital para chegarmos no segundo estágio, que é um carro mais barato, com uma produção maior — o modelo sedã. E o próximo passo é avançar mais ainda desenvolvendo um veículo barato com produção em massa.

Os carros elétricos não poluem mas precisam da eletricidade, que muitas vezes é gerada por fontes poluentes. Como resolver esse problema e deixar o sistema 100% limpo?

Primeiro, em termos de economia, a energia eólica é competitiva com a termoelétrica em algumas situações. Mas o problema é que a eólica só é eficiente em certas localidades. Na minha opinião a energia solar vai fazer a maior parte do trabalho pesado. Faz sentido, uma vez que o mundo já é abastecido pelo sol. Não pela eletricidade, mas se pensar que o sistema climático da Terra é completamente abastecido pelo Sol, as coisas começam a fazer sentido. O Sol é única razão pela qual a Terra não é uma bola de gelo. Esqueça a pequena quantidade de energia que a humanidade consome. A maioria da energia que existe disponível abastece o ecossistema e o sistema climático da Terra. A vida depende de energia solar. Existe sim, uma quantidade ínfima de energia que utilizamos, que na verdade é energia solar acumulada. Se você pensar nos dinossauros e nas plantas que morreram, fossilizaram e transformaram-se em petróleo ou até mesmo no carvão, trata-se de energia solar acumulada através das eras. O que estou tentando dizer é que a quantidade de energia elétrica que a humanidade consome é insignificante perto do que a natureza consome.

Então por que não captamos essa energia e a transformamos em eletricidade em larga escala?

Isso irá acontecer em breve, particularmente nos EUA e na Europa. A energia solar está crescendo em um passo incrivelmente rápido — atualmente, 100% por ano. As coisas estão mudando, com certeza. Mas, precisamos modificar uma infraestrutura gigantesca e isso vai tomar muito tempo. Para se ter uma ideia: Se pegarmos um pedaço de terra nos Estados Unidos semelhante a um quadrado com 128 km de lado, e colocássemos painéis solares por toda a superfície, teríamos energia suficiente para abastecer o país inteiro.

E o custo…

No momento o custo é maior que o do carvão mas ele está caindo rapidamente. É por isso que a energia solar está sendo adotada tão rápido. Dependendo da região a eletricidade custa mais caro. Depende do tipo de geração — termoelétrica, nuclear, hidrelétrica — e o quão longe se está das usinas.

Para algumas pessoas o gasto com pesquisa espacial é uma perda de tempo. Por que é tão importante investir nisso?

Bom, primeiro eu iria fazer a seguinte pergunta: “Você gosta de futebol? Futebol é uma coisa tão útil assim?” O que quero dizer é que a vida não precisa ser apenas sobre resolver esse ou aquele problema. Sempre haverá problemas no fim das contas. Mas é preciso que exista algo que inspire as pessoas, sabe? Razões que as tirem de suas camas todos os dias. Coisas que façam as pessoas se empolgarem com a vida. Para mim, levar a vida além da Terra, chegar a outros planetas e explorar as estrelas é um futuro muito excitante e inspirador — ao contrário de um que nos prende aqui no planeta. Então, temos que ter em mente como as viagens à Lua foram inspiradoras. Foi algo fantástico mesmo sabendo que, de fato, apenas alguns pousaram na Lua. Eu nem tinha nascido quando isso aconteceu mas isso nos faz sentir felizes por sermos seres humanos! É por causa disso que grandes empreitadas existem — elas inspiram as pessoas e dão a elas uma razão para viver. É como o futebol; os torcedores não jogam as partidas, mas eles participam delas porque se alegram no processo.

E por que é tão caro para a NASA ir ao espaço, mas não tanto para sua empresa?

A tecnologia ficou estagnada por muito tempo. Sério, dê uma olhada no ônibus espacial da NASA — aquilo foi desenvolvido nos anos 70! E não fizeram nenhuma melhora significativa nele nos últimos 40 anos. Então, é óbvio que é possível melhorar já que não existia nenhuma espaçonave sendo desenvolvida nos dias de hoje. O que precisávamos era desenvolver uma espaçonave com tecnologia, ferramentas e materiais do século 21. E também, concentrar esforços em realizar grandes avanços, não apenas pequenas melhoras. E o grande avanço é criar um sistema espacial reutilizável. Se você pegar o ônibus espacial da NASA, por exemplo, o tanque de combustível principal precisa ser jogado fora toda vez que uma missão acontece. Então, no fim das contas, o programa de viagens da NASA acaba custando mais do que o nosso foguete.

E quando iremos conseguir um sistema espacial reutilizável?

É um objetivo muito difícil de ser alcançado porque a gravidade da Terra é muito forte. Então, quando tentamos fazer algum componente reutilizável, temos que adicionar mais peso ao foguete. Daí, o desafio é que você precisa colocar todo esse peso em órbita. E isso é um tremendo problema técnico que estamos tentando resolver na Space X — basicamente, inventar o primeiro foguete reutilizável. Não estou dizendo que vamos conseguir porque é um problema super difícil de resolver, mas vamos tentar.

Você tinha um projeto chamado Mars Oasis, que pretendia plantar grãos em uma estufa em Marte. Mas, por causa dos custos, acabou desistindo da idéia e resolveu, em vez disso, criar a Space X. Daqui a quanto tempo você pretende retomar o Mars Oasis?

Com certeza ainda estamos longe. No momento, não existe nenhum foguete capaz de chegar a Marte saindo da Terra — seja o preço que for — levando tripulantes. É possível enviar pequenas sondas, mas nada que chegue perto do tamanho capaz de levar seres humanos. Então, em primeiro lugar, temos que desenvolver alguma coisa grande o suficiente para levar o homem a Marte. Depois disso, podemos dizer “Ok, não queremos ir até lá só uma vez — queremos levar milhares de pessoas e toneladas de equipamento para lá para criar uma base sustentável em Marte”. A partir daí teremos que condicionar nosso trabalho em largas escalas e isso é muito difícil.

E depois de Marte, para onde iremos?

Chegar em Marte é o princípio do começo. É como se Cristóvão Colombo estivesse chegando à América. Ou seja, demorou muito tempo até que cidades fossem construídas, não é mesmo? Então, vamos precisar de milhares de viagens, pessoas e toneladas de equipamento. Começar é uma coisa. Tornar-se um projeto autossustentável é outra completamente diferente que pode levar até o fim do século para acontecer.

Você já disse que investir em Marte é mais importante do que em cosméticos. Por quê?

Eu gosto muito de cosméticos, não me entenda mal. Só estou dizendo que devemos considerar a quantidade certa de dinheiro que devemos investir na transformação para uma civilização multiplanetária. É algo muito importante, sabe? É a primeira vez na história da vida que podemos ampliá-la para além da Terra. Quem sabe quanto tempo essa janela ficará aberta? Sou bastante otimista com relação a Terra, mas é totalmente possível que algo terrível aconteça e acabe com a vida em nosso planeta. Então, temos que agir razoavelmente rápido enquanto pudermos e enquanto essa janela está aberta. Provavelmente deveríamos gastar mais dinheiro nisso do que, por exemplo, em batons. Não estou dizendo que deveríamos gastar o mesmo tanto que investimos em saúde e outras coisas importantes para a vida das pessoas. Mas, acho que deveríamos gastar algo em torno de 0,5% da nossa economia nisso — parece ser uma quantia razoável.

Como você enxerga o mundo daqui a 40 anos?

Ainda estaremos tentando estabelecer a humanidade como uma civilização sustentável em Marte para daí nos tornarmos uma sociedade verdadeiramente multiplanetária. Com certeza também haverá a questão sobre como faremos a transição para transporte e produção de energia sustentáveis. Talvez todos esses problemas já estejam resolvidos até lá. Acho que estaremos em um lugar muito bonito de se viver.

Fonte: Veja

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