Um mundo sem finalidade e que não segue uma ordem moral – Leandro Chevitarese

Leandro Chevitarese – Começa suas proposições dizendo que precisamos pensar um mundo que não tem uma ordem moral, seja ela transcendente ou imanente. Faz uma explicação minuciosa da filosofia a partir dos gregos Sócrates/Platão, colocando como primeira evidência: “a razão”. A razão seria como coloca Platão na alegoria da caverna: “somente a razão pode realmente compreender o mundo, e dar um sentido a ele”. Platão com isso, procura nos mostrar que esse é um mundo de sombras, ilusão, equívocos, crenças…, e
por meio da razão, passaríamos a conhecer e aplicar esse conhecimento ao mundo, tornando-o mais compreensível.

Isso nos remete aos seguintes valores: conhecendo-se a verdade, propicia-se ao homem, sair da caverna e ver o mundo como ele realmente é. Eliminando as ilusões aparentes e o remetendo ao mundo real.

Como segunda evidência: temos a reinterpretação do mundo por meio dos ensinamentos do cristianismo Judaico/Cristão; sendo mais intensificado por Santo Agostinho – ou como diria Nietzsche – um platonismo para o povo: existe uma verdade a ser descoberta, existe um tempo linear (um começo: Deus cria o mundo – um meio: vinda de Jesus o Messias, e um fim: o Juízo final – fim do tempo); passa a existir um conceito moral implícito, isto é, um Deus que dita todas essas regras. Subentende-se por essa evidência que embora não saibamos, Deus sabe o que faz, e passamos a trilhar um caminho que poderá nos levar ao paraíso ou ao inverno. Diante disso: existe uma verdade a ser descoberta sobre o mundo, existe uma ação como consequência da descoberta dessa verdade e por fim, existe um sentido para que existamos neste mundo.

Na terceira evidência, começa haver uma separação dos conceitos que no período medieval se baseavam quase que totalmente em ideias religiosas. Neste ponto os iluministas e modernistas: Descartes, Kant, Haegel, etc., passam a afirmar que a partir de agora, nós precisamos saber que existe uma verdade a ser descoberta e que existe um sujeito que descobre essa verdade, que essa verdade remete à racionalidade, formando um sujeito: racional, autônomo e livre. Esse sujeito precisa se orientar pela razão para construir um significado para esse mundo e para sua existência, seja ela individual ou em sociedade.

A partir deste ponto surgem novas dúvidas que remetem ao indivíduo novas perguntas: Qual é o sentido da vida? Qual é propósito de tudo isso? Com tantos avanços na ciência, será que é o momento de esquecer todos aqueles valores que formaram a base de toda a moralidade humana, conforme a primeira e a segunda evidência? Será que é seguro eliminá-las por completo? Seria possível um mundo sem uma ordem moral, sem finalidade e sem sentido? Conseguiríamos viver sem acreditar em valores utópicos que estiveram presentes na primeira e segunda evidência? Será que sem esses valores não caminharíamos para algo ainda pior, aleatório, duvidoso?

A dúvida do projeto moderno começa em Schopenhauer

Analisando em maior profundidade essa questão podemos voltar em Schopenhauer, que no decorrer do século XIX, em seu livro “O mundo como vontade e como representação”, começa afirmando que não há qualquer finalidade para o que fazemos; nenhum sentido pré-estabelecido e nenhuma direção. Somos movidos por uma força irracional, cega e sem nenhum sentido que ele chama de vontade. A partir daí começa os primeiro sinais de desconstrução do projeto moderno. Cuja ideia de um mundo racional, com um sentido, orientado pela racionalidade em direção ao aperfeiçoamento da sociedade, passa a ser duvidoso. Afirma também que não existe uma moralidade implícita na vida!

Isso nos remete também a Karl Marx e Nietzsche, que começam a problematizar a realidade afirmando que estamos sonhando acordados para o fato de que o projeto moderno é algo em que desejamos acreditar, mas na verdade, é impossível de ser atingido, sendo uma enorme mentira que gostamos de acreditar.

Com Nietzsche é instalado o Niilismo no projeto moderno

A filosofia de Nietzsche do final de século XIX e começo do século XX coloca-nos diante de uma verdade avassaladora: a religião, a crença em Deus, o projeto moderno, os valores milenares que nos foram passados, são em sua maioria, absurdos que não têm o menor sentido em nossa realidade concreta (presente) atual.

Diante dessas dúvidas, mergulhamos compulsivamente em um consumismo que tenta dar um sentido às nossas dúvidas e buscas por uma verdade mais apropriada para essa realidade vivida.

Hoje vivenciamos intensamente esse Niilismo

Muitos hoje vivem da compulsão, medicação; uma busca frenética por grupos de autoajuda como resultado de um mundo e de uma sociedade cada vez mais exigentes. Vivemos na transitoriedade, intensidade, cujos bons momentos são sempre a última chance para sermos felizes. E as experiências nos aparecem como a última alternativa, sempre; tudo precisa ser vivido de uma maneira intensa, rápido e as pessoas passam a cobrar se você soube dos últimos fatos, acontecimentos, etc. Construímos com isso uma verdadeira prisão, como resultado das dúvidas, angústias e medos, de não termos mais respostas para a pergunta: qual é o sentido da vida? Estamos realmente perdidos tanto fora quanto dentro de nós mesmos. Esse é um resumo do niilismo vivido por todos nós hoje.

A percepção aguçada de Nietzsche

Nietzsche nos mostra uma alternativa chamada de genealogia da moral: se somos realmente capazes de se perguntar sobre a genealogia (origem) de valores e se realmente esses valores têm um sentido concreto (real) no mundo em que vivemos. Essa problematização nos oferece a chance de questionarmos em nós mesmos qual é o sentido da vida, porque os valores adquiridos (tradicionais) são equivocados e não funcionam mais em nossa atual realidade. Aí surgem novamente as mesmas perguntas: nossos valores são uma herança de nossa sociedade, ou uma dádiva nos dada por um Deus?

Nietzsche afirma que não é nada disso, tudo o que vivenciamos como sendo nossos valores, foi sempre uma criação puramente humana, que não teve nenhuma influência, transcendente ou imanente de nenhum fator ou força externa a nós. Nós é que criamos e destruímos nossas verdades e tudo o que é decorrente delas, não havendo motivos para acreditar em mais nada, além disso.

Resumindo

Com todo o conhecimento que temos hoje podemos concluir que o mundo, a vida, nós e o universo; não têm qualquer finalidade. Nós existimos no meio de outros seres diferentes de nós, ocupamos um espaço que não foi concebido somente para a nossa existência e que nunca fomos especiais em nenhum sentido. Nossas raízes são o cosmos e tudo o que existe são acontecimentos puramente arbitrários e totalmente desprovidos de qualquer sentido que possamos atribuir. Nossos valores são construídos e desconstruídos por nós mesmos no decorrer do tempo. Pensar diferente disso é cair em niilismo, que nada mais é do que tentar transpor um valor por meio de outro, até o ponto de consumir toda a nossa vida numa busca frenética por um sentido final que não existe. O que podemos fazer é nos adaptarmos cada vez mais a esse modo de viver o mundo, cujos valores, ética e moral, estão centrados totalmente em nossa convivência como seres presentes e futuros.

Fonte:Cpflcultura

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