Neurocientistas confirmam que partes da teoria de Freud estão corretas

Sigmund Freud: ciência comprava que o recalque ou repressão provocam respostas físicas em pacientes. (Divulgação).

Os pacientes apresentaram diferenças na atividade cerebral quando tiveram lembranças traumáticas comparados com voluntários saudáveis em um estudo publicado na edição da revista JAMA Psychiatry do mês passado. Além de apoiar a teoria de Freud e ajudar a explicar uma das reclamações mais comuns ouvidas pelos neurologistas, a pesquisa poderia criar novas abordagens de tratamento para os pacientes cujos sintomas costumavam ser menosprezados pelos doutores no passado.
“Trata-se do primeiro artigo de que eu sou ciente que realmente mostra que eventos traumáticos prévios definitivamente podem desencadear esse tipo de resposta motora”, disse John Speed, professor de medicina e reabilitação física na Universidade de Utah em Salt Lake City, que não esteve envolvido na pesquisa. “Isso é muito estimulante”.

A pesquisa é uma das mais recentes que demonstram como dispositivos de escâner cerebral feitos por companhias como a Siemens AG, a General Electric Co. e a Royal Philips NV estão sendo usados para ajudar a desvendar sintomas neuropsiquiátricos que costumavam desconcertar os médicos.

Os cientistas utilizaram imagens de ressonâncias magnéticas (fMRI) para acompanhar mudanças no fluxo sanguíneo para áreas específicas do cérebro enquanto se perguntava aos participantes sobre seu passado, o que produziu vistas anatômicas e funcionais dos seus cérebros.

As lembranças reprimidas foram um princípio das teorias psicológicas de Freud sobre a natureza dos processos mentais inconscientes. O neurologista austríaco, que ficou conhecido como o pai da psicanálise, usou o termo repressão para descrever a forma em que eventos emocionalmente dolorosos podiam ser bloqueados fora da consciência. Este mecanismo de autoproteção, postulou Freud, podia criar sintomas psicossomáticos rotulados “histeria” na época, em um processo atualmente conhecido como conversão.

Os casos se manifestam tipicamente em forma de uma fraqueza ou paralisia em um lado do corpo, similar a um derrame. Entre os sintomas podem ocorrer convulsões não causadas por epilepsias. Os médicos nunca descobriram uma base neurológica para a condição – os cérebros, nervos e músculos dos pacientes pareciam estar normais –, o que os leva a acreditarem que os sintomas são psicossomáticos e criam a suspeita de que os pacientes estejam inventando suas doenças, disse Richard Kanaan, professor de psiquiatria na Universidade de Melbourne e um dos autores do estudo.

“Ainda é pouco entendido, até mesmo pela maioria dos médicos”, disse Speed, que tratou mais de 200 casos. “Eu tive inúmeros pacientes que me disseram que ninguém acreditava neles, ou que lhes disseram bruscamente que estavam fingindo”.

O estudo realizado por Kanaan e seus colegas da King’s College, em Londres, envolveu 12 pacientes com desordem de conversão e 13 adultos saudáveis sem a condição.

Modelo freudiano

Sistema avançado de fMRI da Siemens. (Divulgação).

Nos pacientes com conversão, a lembrança pareceu ativar uma área do cérebro conhecida como o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, ao passo que outras lembranças – até mesmo as irritantes – em ambos os grupos de pacientes ativaram o hipocampo, uma parte do cérebro importante para a formação das lembranças.

“Trata-se, eu acho, da primeira exploração científica de algo como um modelo freudiano, que é ignorado há tempos”, disse Kanaan, em entrevista do seu escritório no Austin Hospital de Melbourne, no qual é diretor de psiquiatria.

A abordagem de Freud para tratar os pacientes com desordem de conversão consistia em desvelar o trauma suprimido mediante a psicoterapia e ajudar a relembrar e reprocessar essas lembranças para aliviar os sintomas.

Ainda que Freud não tivesse as ferramentas para explorar os mecanismos mediante os quais podia ocorrer a desordem da conversão, ele “acertou o conceito”, disse Speed. “A conversão é simplesmente uma manifestação física muito incomum e mais grave do estresse, na qual há um bloqueio de mensagens do ou para o cérebro”.

Freud está de volta

Neurocientistas descobrem que descrições biológicas do cérebro funcionam melhor se combinadas às teorias delineadas pelo pensador austríaco há um século.

Na primeira metade do século 20, as ideias de Sigmund Freud dominaram as explicações sobre o funcionamento da mente. Seu pressuposto básico era que nossas motivações permanecem em sua maior parte no inconsciente. Mais que isso, são mantidas longe da consciência, por uma força repressora. O aparato executivo da mente (o ego) rejeita iniciativas do inconsciente (o id) que estimulam comportamentos incompatíveis com nossa concepção civilizada de nós mesmos. A repressão é necessária porque esses impulsos se manifestam na forma de paixões incontroláveis, fantasias infantis e compulsões sexuais e agressivas.

Quando a repressão não funciona, dizia Freud até sua morte, em 1939, surgem as doenças mentais: fobias, ataques de pânico e obsessões. O objetivo da psicoterapia, portanto, era rastrear os sintomas neuróticos até suas raízes inconscientes e aniquilar seu poder através de sua confrontação com a análise madura e racional.

Conforme as pesquisas sobre a mente e o cérebro se sofisticaram, a partir da década de 1950, os especialistas se deram conta de que as evidências fornecidas por Freud eram bem tênues. Seu principal método de investigação não era a experimentação controlada, mas a simples observação de pacientes no cenário clínico, combinada a inferências teóricas. Os tratamentos com remédios ganharam força, e a abordagem biológica das doenças mentais deixou a psicanálise nas sombras. Se Freud estivesse vivo, é possível que até saudasse essa reviravolta.

Neurocientista muito respeitado até hoje, ele frequentemente fazia comentários como “as deficiências de nossa descrição provavelmente desapareceriam se já pudéssemos substituir os termos psicológicos por termos fisiológicos e químicos”.

Na década de 1980, os conceitos de ego e id eram considerados antiquados, mesmo em certos círculos psicanalíticos. Freud era passado. Na nova psicologia, o motivo de as pessoas deprimidas se sentirem mal não é a destruição das primeiras ligações sentimentais da infância – há um desequilíbrio nas substâncias químicas de seu cérebro. A psicofarmacologia, no entanto, não oferece uma grande teoria sobre a personalidade, as emoções e as motivações – uma nova concepção do que realmente governa o que sentimos e o que fazemos. Sem esse modelo, os neurocientistas concentraram seu trabalho em pontos específicos e deixaram de lado o quadro geral.

Esse quadro está voltando, e a surpresa é: não é muito diferente do que o delineado por Freud há um século. Ainda estamos longe de um consenso, mas um número cada vez maior de neurocientistas está chegando à mesma conclusão de Eric R. Kandel, da Universidade Columbia, o Prêmio Nobel de 2000 em fisiologia ou medicina: a psicanálise “ainda é a visão da mente mais intelectualmente satisfatória e coerente”.

Freud está de volta, e não apenas na teoria. Grupos interdisciplinares reunindo os campos antes distantes e muitas vezes contrários da neurociência e da psicanálise se formaram em praticamente todas as grandes cidades do mundo. Essas redes, por sua vez, uniram-se na Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, que organiza um congresso anual e publica a bem-sucedida revista Neuro-Psychoanalysis. O conselho editorial da publicação, formado por uma constelação de especialistas da neurociência comportamental contemporânea – incluindo Antonio R. Damasio, Kandel, Joseph E. LeDoux, Benjamin Libet, Jaak Panksepp, Vilayanur S. Ramachandran, Daniel L. Schacter e Wolf Singer -, é o maior testemunho do renovado respeito pelas ideias de Freud.

Juntos, esses pesquisadores estão desenvolvendo o que Kandel chama de “novos parâmetros intelectuais para a psiquiatria”. Dentro desses parâmetros, a ampla organização da mente esboçada por Freud parece destinada a funcionar como a teoria da evolução de Darwin em relação à genética molecular – um modelo ao qual novos detalhes vão se ajustando. Ao mesmo tempo, neurocientistas revelam provas de algumas das teorias de Freud e desvendam os mecanismos que estão por trás dos processos mentais descritos por ele.

Motivação Inconsciente

Quando Freud introduziu a noção central de que a maioria dos processos mentais que determinam nossos pensamentos, sentimentos e desejos, acontece inconscientemente, a ideia foi rejeitada. Mas descobertas atuais confirmam a existência e o papel essencial dos processos mentais inconscientes. Um exemplo é que o comportamento de pacientes incapazes de lembrar os acontecimentos passados por causa de danos a estruturas que armazenam lembranças no cérebro é claramente influenciado pelos fatos “esquecidos”. Os neurocientistas cognitivos analisam casos assim, determinando sistemas de memória diferentes, que processam a informação “explicitamente” (conscientemente) ou “implicitamente” (inconscientemente). Freud havia dividido a memória da mesma forma.

Os neurocientistas também identificaram sistemas de memória que controlam o aprendizado emocional. Em 1996, na Universidade de Nova York, LeDoux demonstrou a existência, sob o córtex consciente, de uma via neuronal que conecta informações de percepção com estruturas primitivas do cérebro responsáveis pela geração de reações de medo. Como essa via atravessa o hipocampo – que gera memórias conscientes -, acontecimentos do presente desencadeiam lembranças emocionalmente importantes, provocando sensações conscientes que parecem irracionais, como “homens de barba me dão arrepios”.

A neurociência mostrou que as principais estruturas cerebrais essenciais para a formação de memórias conscientes não são funcionais durante os dois primeiros anos de vida, explicando o que Freud chamou de amnésia infantil. Como supôs Freud, não é que tenhamos esquecido nossas lembranças mais antigas; simplesmente não conseguimos trazê-las à consciência. Mas essa incapacidade não as impede de afetar os sentimentos e o comportamento adultos. Seria difícil encontrar um neurobiólogo que não concorde que as experiências da primeira infância, principalmente entre mãe e bebê, influenciam o padrão das conexões cerebrais de modo a moldar nossa personalidade e saúde mental futura. Apesar disso, não é possível lembrar-se dessas experiências conscientemente. Fica cada vez mais claro que boa parte de nossa atividade mental é motivada pelo inconsciente.

Repressão Justificada

Mesmo que sejamos fundamentalmente guiados por pensamentos inconscientes, isso não prova a afirmação de Freud de que reprimimos informações desagradáveis por vontade própria. No entanto, começam a se acumular estudos que apoiam essa noção. O mais famoso deles foi feito em 1994 pelo neurologista Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, com pacientes que sofriam de “anosognosia”. Danos na região parietal direita do cérebro dessas pessoas fazem com que não percebam que possuem problemas físicos graves, como um membro paralisado. Depois de ativar artificialmente o hemisfério direito de uma paciente, Ramachandran observou que ela percebeu que seu braço esquerdo estava paralisado – e estava assim desde que ela havia sofrido um derrame, oito dias antes. Ela era capaz de reconhecer a ausência e tinha registrado inconscientemente esse fato nos oito dias anteriores, apesar de suas negativas conscientes de que houvesse algo errado.

Quando o efeito da estimulação acabou, a mulher não apenas voltou a acreditar que seu braço estava normal, mas também esqueceu a parte da entrevista em que tinha percebido que o braço estava paralisado, apesar de lembrar-se nos mínimos detalhes da conversa. Ramachandran concluiu: “A extraordinária implicação teórica dessas observações é que as lembranças realmente podem ser seletivamente reprimidas. Ver essa paciente me convenceu, pela primeira vez, da realidade do fenômeno da repressão que compõe a pedra fundamental da teoria psicanalítica clássica”.

Assim como os pacientes com o “cérebro dividido”, cujos hemisférios permanecem sem ligação entre si, os pacientes de anosognosia abstraem fatos indesejados, dando explicações plausíveis, mas inventadas, sobre ações motivadas pelo inconsciente. O hemisfério esquerdo emprega claramente os “mecanismos de defesa” freudianos, diz Ramachandran.

Fenômenos análogos também vêm sendo demonstrados em pessoas com cérebros intactos. Como disse o neuropsicólogo Martin A. Conway, da Universidade Durham, na Inglaterra, em comentário publicado na Nature em 2001, se efeitos significativos de repressão podem ser produzidos em pessoas normais num cenário inocente de laboratório, imagine só o tamanho dos efeitos produzidos pelo turbilhão emocional das situações traumáticas da vida real.

Freud foi mais além. Para ele, não somente grande parte de nossa atividade mental é inconsciente e vive em negação, mas a parte reprimida do inconsciente opera de acordo com um princípio diferente do “princípio de realidade” que governa o ego consciente. Esse tipo de pensamento inconsciente está ligado ao desejo e ignora tanto as leis da lógica quanto o tempo.

Se Freud está certo, danos a estruturas inibidoras do cérebro (a morada do ego “repressor”) liberariam formas irracionais, ligadas ao desejo, de funções mentais. É exatamente isso que se observa em pacientes com danos na região límbica frontal, que controla os aspectos essenciais da autoconsciência. Os pacientes apresentam uma síndrome conhecida como psicose de Korsakoff: não percebem que têm amnésia e preenchem as lacunas da memória com histórias inventadas, as confabulações.

A neuropsicóloga da Durham, Aikatereni Fotopoulou, estudou um paciente desse tipo em seu laboratório. O homem não conseguia se lembrar, nas sessões de 50 minutos em minha sala, durante 12 dias consecutivos, que já me conhecia e que havia se submetido a uma operação para retirar um tumor dos seus lobos frontais, o que causava a amnésia. Para ele, não havia nada de errado com sua saúde. Quando questionado sobre a cicatriz na cabeça, ele confabulava explicações absolutamente improváveis: que tinha sofrido uma cirurgia odontológica, ou uma operação de ponte de safena. Ele realmente tinha passado por esses procedimentos – anos antes.

Da mesma forma, quando questionado sobre quem eu era e o que ele fazia em meu laboratório, dizia que eu era um cirurgião dentista, um companheiro de bebida, um cliente em consulta profissional, um colega de time de um esporte que não praticava havia décadas ou um mecânico que estava consertando um de seus vários carros esporte (que ele não possuía). Seu comportamento era coerente com essas falsas crenças: ele olhava para a cerveja sobre a mesa ou para o carro através da janela.

Desejos Ocultos

O que chama a atenção nessas ideias falsas é a presença de desejo, uma impressão que Fotopoulou confirmou com a análise quantitativa de 155 das confabulações do paciente. As falsas crenças do paciente não eram aleatórias – eram geradas pelo “princípio de prazer” que, segundo Freud, é central para o inconsciente. O homem simplesmente reconstruía a realidade como queria que fosse. Observações semelhantes foram relatadas por outros pesquisadores, como Martin Conway, de Durham, e Oliver Turnbull, da Universidade de Gales. Eles são neurocientistas cognitivos, não psicanalistas, mas interpretam suas descobertas em termos freudianos, alegando, basicamente, que os danos à região límbica frontal que produzem as confabulações prejudicam os mecanismos de controle cognitivo, que são a base da monitoração normal da realidade, e libertam da inibição as influências implícitas do desejo na percepção, na memória e no julgamento.

Freud argumentava que o princípio do prazer, na verdade, exprimia impulsos primitivos, animais. Para seus contemporâneos vitorianos, a ideia de que o comportamento humano fosse no fundo governado por compulsões sem nenhum propósito mais nobre que a auto-realização carnal era simplesmente escandalosa. O escândalo se atenuou nas décadas seguintes, mas o conceito freudiano do homem como animal foi mantido em segundo plano pelos cientistas cognitivos. Agora ele está de volta.

Neurocientistas como Donald W. Pfaff, da Universidade Rockefeller, e Jaak Panksepp, da Universidade Estadual de Bowling Green, acreditam hoje que os mecanismos instintivos que regem a motivação humana são ainda mais primitivos do que imaginava Freud. Nossos sistemas básicos de controle emocional são iguais aos de nossos parentes primatas e aos de todos os mamíferos. No nível profundo da organização mental que Freud chamou de id, a anatomia e a química funcionais de nosso cérebro não são muito diferentes daquelas dos animais que vivem nos currais ou dos bichos de estimação.

No entanto, os neurocientistas modernos não aceitam a classificação freudiana da vida instintiva humana como simples dicotomia entre sexualidade e agressão. Através do estudo de lesões e do efeito de drogas, além da estimulação artificial do cérebro, eles identificaram pelo menos quatro circuitos instintivos básicos em mamíferos, sendo que alguns deles se sobrepõem. São o sistema de “recompensa” ou de “busca” (que inclui a procura de prazer); o sistema da “raiva” (que comanda a agressão raivosa, mas não a predatória); o sistema de “medo-ansiedade”; e o do “pânico” (que inclui instintos como os que comandam os impulsos maternais ou as relações sociais). Também se investiga a existência de outras forças instintivas, como um sistema de “brincadeira”. Todos esses sistemas cerebrais são regulados por neurotransmissores, substâncias químicas que carregam mensagens entre os neurônios do cérebro.

O sistema de busca, controlado pelo neurotransmissor dopamina, apresenta uma incrível semelhança com a “libido” freudiana. De acordo com Freud, os impulsos sexuais ou libidinosos são um sistema de busca de prazer que move a maioria de nossas interações com o mundo. Pesquisas recentes mostram que seu equivalente neural está diretamente envolvido em quase todas as formas de compulsão e vício. É interessante notar que as primeiras experiências de Freud com a cocaína – na maioria delas ele aplicava a droga em si mesmo – o convenceram de que a libido devia ter algum fundamento neuroquímico.

Farmácia Freudiana

Ao contrário de seus sucessores, Freud não via motivo para o antagonismo entre psicanálise e psicofarmacologia. Ele antevia com entusiasmo o dia em que a “energia do id” seria diretamente controlada por “determinadas substâncias químicas”. Os tratamentos que combinam psicoterapia com medicamentos que agem no cérebro são considerados hoje a melhor abordagem para muitos transtornos. E tecnologias de imagem mostram que a psicoterapia atua no cérebro de modo semelhante aos medicamentos.

As ideias de Freud também estão ressurgindo na ciência que trata do sono e dos sonhos. Sua teoria dos sonhos – a de que são um modo de vislumbrar os desejos inconscientes – foi desacreditada com a descoberta da correlação estreita entre o movimento rápido dos olhos (REM) e o ato de sonhar, nos anos 1950. A visão freudiana perdeu praticamente toda a credibilidade nos anos 1970, quando pesquisadores mostraram que o ciclo do sonho era controlado pela substância química acetilcolina, produzida em parte “desimportante” do tronco encefálico. O sono REM acontecia automaticamente, mais ou menos a cada 90 minutos, e era desencadeado por substâncias químicas e estruturas cerebrais que nada tinham a ver com a emoção e a motivação. Essa descoberta queria dizer que os sonhos provavelmente não tinham nenhum significado; eram simplesmente histórias concatenadas pelo cérebro para tentar refletir a atividade cortical aleatória provocada pelos acontecimentos do dia.

Estudos mais recentes vêm mostrando que o sono REM e o sonho são estados dissociáveis, controlados por mecanismos distintos, embora interajam. O sonho é produzido por uma rede de estruturas reunidas nos circuitos instintivo-motivacionais do cérebro anterior. Essa revelação deu origem a uma miríade de teorias sobre os sonhos, sendo que a maior parte delas remete a Freud.

Fibras dos Sonhos

Mais intrigante é a observação feita por mim e por outros cientistas de que os sonhos param totalmente quando determinadas fibras nas profundezas do lobo frontal se rompem – um sintoma que coincide com a redução geral do comportamento motivado. A lesão é a mesma que era deliberadamente produzida na lobotomia pré-frontal, um procedimento cirúrgico obsoleto usado para controlar alucinações. Esse tipo de operação foi substituído na década de 1960 por medicamentos que reduzem a atividade da dopamina nos mesmos sistemas cerebrais. O sistema de busca, portanto, pode ser o produtor básico dos sonhos.

Se a hipótese for confirmada, a teoria de que os sonhos estão ligados à realização dos desejos pode voltar a determinar a agenda do estudo do sono. Mas, mesmo que prevaleçam outras interpretações, todas elas demonstram que a conceituação “psicológica” dos sonhos voltou a ser cientificamente respeitável. Poucos neurocientistas ainda negam – como já fizeram sem medo – que o conteúdo dos sonhos tenha um mecanismo básico emocional.

Nem todos são entusiastas do ressurgimento dos conceitos freudianos na ciência mental. Não é fácil para a geração mais antiga de psicanalistas, por exemplo, aceitar que seus alunos e colegas mais jovens podem e devem sujeitar a sabedoria convencional a um nível totalmente novo de escrutínio biológico. Mas um número animador de cientistas mais velhos, dos dois lados do Atlântico, – comprometidos a pelo menos manter a mente aberta, como demonstram minha menção anterior aos psicanalistas eminentes que fazem parte do conselho da Neuro-Psychoanalysis e as muitas cabeças grisalhas da Sociedade Internacional de Neuropsicanálise.

Para os neurocientistas mais antigos, a resistência ao retorno das ideias psicanalíticas vem de um tempo, no início de suas carreiras, em que o edifício da teoria freudiana era praticamente indestrutível. Eles não reconhecem nem a confirmação parcial de alguns conceitos fundamentais de Freud; exigem sua completa eliminação. Nas palavras de J. Allan Hobson, um renomado psiquiatra especialista em sono da Faculdade de Medicina de Harvard, o recente interesse em Freud é nada menos que uma inútil readaptação de dados modernos a parâmetros teóricos antiquados. Mas, como disse Panksepp em entrevista de 2002 à revista Newsweek, para os neurocientistas que estão entusiasmados com a reconciliação entre neurologia e psicanálise, “não é uma questão de provar se Freud estava certo ou errado, mas de terminar o serviço”.

Se esse serviço puder ser concluído – se os “novos parâmetros intelectuais para a psiquiatria” de Kandel forem estabelecidos -, vai virar passado o tempo em que as pessoas com dificuldades emocionais tinham de escolher entre a terapia psicanalítica, que pode estar em desacordo com a medicina moderna e as drogas prescritas pela psicofarmacologia, que desvaloriza a conexão entre as substâncias químicas cerebrais que manipula e as complexas trajetórias de vida que culminam nos problemas emocionais. A psiquiatria do futuro promete oferecer aos pacientes, assistência fundamentada na compreensão integrada do que realmente governa o que sentimos e fazemos.

Quaisquer que sejam as terapias que o amanhã nos reserva, os pacientes só podem se beneficiar de um entendimento melhor de como o cérebro funciona. À medida que os neurocientistas modernos se voltam mais uma vez para as questões profundas da psicologia humana que tanto preocuparam Freud, é gratificante perceber que podemos construir sobre os alicerces que ele edificou, em vez de começar do zero. Mesmo que identifiquemos os pontos fracos das teorias de Freud e corrijamos, revisemos e completemos seu trabalho, é maravilhoso ter o privilégio de terminar o serviço.

Fonte: Exame Tecnologia

Fonte: Viver Mente

Primeira confirmação científica segundo os especialistas: Science Daily

Artigo técnico confirma o diagnóstico de Freud: JAMA Psychiatry

55 comentários sobre “Neurocientistas confirmam que partes da teoria de Freud estão corretas

  1. Isso é bom, mas poxa, essa questão é tão absurdamente manifesta em processo terapêutico… 1 século de pesquisas, entre psicanalistas e psicólogos e médicos de outras vertentes que aprofundaram o tema, essa reportagem não precisa afirmar que “Neurocientistas confirmam que a teoria de Freud está correta”. Isso é mais uma demonstração do quanto uma perspectiva científica se sobrepõe as demais, gerando um fluxo de poder que não ajuda no desenvolvimento da consciência, mas que só aliena a opinião pública e consequentemente as instituições de saúde em uma só vertente de pensamentos e práticas – e temos como exemplo disso ainda hoje o modelo médico que ainda renega em larga escala as doenças psicossomáticas. Depois de Foucault, ainda não percebemos como atuam os fluxos de poder, e continuamos caindo nas mesmas armadilhas e nos mesmos controles…

    Curtir

    • Prezado Rafael,
      também notei em minha área que é a tecnologia algumas influências parecidas. O que sempre faltou foi um interfaceamento entre o método terapêutico e o próprio diagnóstico do problema. E se o paciente que está no divã é diagnosticado com determinada conversão, é válido que o médico presente está presenciando e pode documentar esse fato, mas se não houver consenso, surge uma nebulosidade crescente com o passar do tempo. O que a tecnologia tem feito é eliminar essa dúvida pelo desenvolvimento de interfaces cujo uso e diagnóstico é comum a todos os profissionais. Neste caso não se trata apenas de opiniões diversas e sim uma confirmação apropriada e disponível em todas as camadas da medicina. Abs.

      Curtir

  2. Sou Psiquiatra e Psicoterapeuta com formação Psicanalítica Freudiana. Vivo repetindo para meus clientes que remédio serve para REMEDIAR, é uma ajuda temporária. E , além disso o remédio não fala com ninguém. Ele apenas atua.Freud dizia que a Psicanálise de sua época não era indicada para psicóticos. No futuro haveriam medicamentos que diminuíssem os sintomas psicóticos e estes poderiam ser beneficiados com esta abordagem. Quer dizer que além de gênio , Freud foi um profeta.

    Curtir

    • Prezado Nehemias,
      os remédios são apenas tópicos para eliminar os efeitos de uma determinada doença ou dor. Mas é o acompanhamento do profissional de saúde que garante ao paciente, por meio de um diagnóstico antecipado, uma possível cura para suas doenças. Esta notícia de que partes da teoria de Freud estão corretas abre uma oportunidade de reconhecimento para todos os profissionais que atuam na psicologia e psicanálise, garantindo maior credibilidade. É de extrema importância que possamos cada vez mais comprovar os estudos e práticas que antecedem aos atuais desenvolvimentos tecnológicos. Abs.

      Curtir

  3. Bobagem minimizar a comprovação das neurociências com o preconceito antibiologico. Tanto a neurociência quanto a semiótica (ver Derrida e a carta 52) têm trazido novos subsídios para aumentar a confiabilidade científica da psicanálise, o que é bom para todos os interessados em explorar veradeiramente a mente, sem pressupostos dogmáticos.

    Curtir

  4. Pois sou psicóloga e terapeuta de EMDR, uma nova abordagem psicoterápica que tem comprovada a sua eficácia no tratamento de traumas, fobias e medos em geral através de exames como os demonstrados na reportagem. Foram feitos exames antes de utilizar a técnica, pedindo que o paciente lembrasse de um trauma ou cena dolorosa do passado, para ver qual área do cérebro seria sinalizada. Depois de uma sessão da técnica do reprocessamento EMDR (Dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares), veja bem, UMA SESSÃO, o exame foi refeito e outros locais do cérebro foram sinalizados quando o paciente pensou na mesma lembrança traumática. Resultado de um trabalho de correção dessa memória difícil, transformando-a em algo suportável.
    Leia mais a respeito no meu blog deisejardim.blogspot.com.br

    Curtir

  5. será?????????? baita palhaçada tendenciosa!!!!!! sugiro que todos leiam o artigo dessa publicação que, em nenhum momento, menciona a teoria psicanalítica… o artigo está disponivel no web of science… a ativação neuronal de uma memoria traumática diferente de qdo ativado uma memoria normal não tem nada a ver com freud… para freud, a memoria traumática não era ativada devido a um processo de recalque (que a torna inconsciente e inacessível à esfera consciente)… se uma memoria se ativa no consciente, logo não foi ‘recalcada’… e caso não fora recalcada plenamente, os recursos do ego incessantemente tentam evitá-la via formação de sintomas… essa reportagem certamente foi escrita por um psicanalista que interpretou os dados de um estudo ressonancia funcional… mas o estudo em si não fala nada da teoria freudiana… além disso, memorias traumáticas são muito mais comuns do que crise psicogênica (ou crise conversiva)… logo não tem correlação direta… um pouco de pesquisa nos artigos divulgados nos mostra isso facilmente…

    Curtir

  6. Acho uma besteira dizer que os neurocientistas (ou as neurociências) confirmaram a teoria de Freud. Por 3 motivos, pelos menos: 1) as neurociências são muito complexas e há muitas controvérsias internas, daí dizer “confirmam” é extremamente equivocado pois há muitos neurocientistas que questionariam isso; Além disso, nenhum estudo isolado ou mesmo meia dúzia de estudos é suficiente para confirmar ou comprovar nada;.2) a teoria de Freud é muito vasta, não teria como as neurociências “confirmarem” tudo – como seria, por exemplo, uma “confirmação” do Complexo de Édipo? A tal “confirmação” seria somente com relação a alguns tópicos. E, especialmente 3) Psicanálise e neurociencias trabalham com níveis diferentes de analise que não podem ser reduzidos um ao outro. Não é possível dizer que foi confirmado que o inconsciente freudiano existe porque ele não é uma parte da nossa anatomia – ainda que dependa dela. É um inconsciente simbólico, não cerebral. Assim, não faria sentido dizer que as neurociencias confirmam Freud, porque cada um está falando de um coisa, ou melhor, de um nivel de analise diferente. Li outro dia mesmo um livro sobre isso, do professor Benilton Bezerra Jr. No livro ele analisa o Projeto para uma Psicologia científica, em que o Freud ainda acreditava numa abordagem cerebral da psique, que depois ele abandonaria (ou exploraria em outro nivel). O livro, recem lançado, chama-se “Projeto para uma psicologia científica: Freud e as Neurociencias”.

    Curtir

    • Prezado Felipe,
      concordo com você sobre o vasto trabalho de Freud ainda em estudo e carecendo de confirmações. Pelo que pesquisei foi confirmado por vários especialistas no assunto – o diagnóstico agora correto – sobre áreas do cérebro (responsáveis por respostas motoras) que são afetadas em razão do paciente sofrer alguma repressão. Sobre os sonhos também foi obtido várias confirmações do diagnóstico sugerido por Freud. Claro que não foi o trabalho completo, apenas uma pequena parte dele. Mas, a confirmação de um assunto delicado alinha novamente as pesquisas; uma pequena lâmpada foi acesa no meio dessa escuridão.
      Sobre o livro de Benilton Bezerra Jr., é interessante, farei uma leitura assim que possível!

      Curtir

  7. Pessoal, recomendo a leitura de meu livro “O novo inconsciente” da editora Artmed
    Ganhei um jabuti em 2012
    No livro enfoco a neuropsicanalise e seus equívocos…

    Curtir

    • Boa noite Thales,
      já vi o seu vídeo e agradeço as correções. Na verdade foi o título do poste em meu Blog o motivo de tantas contestações. Não pude revisar o texto, pois não foi de minha autoria, fiz a fusão de dois textos (um da Exame e outro da Viver Mente). Também sou membro da Science Mag para periódicos científicos e gosto de consultar minuciosamente as fontes das publicações que faço em meu Blog para não divulgar pseudo ciência. Meu foco é nas tecnociências, matemática, astronomia e temas relacionados. Abs.

      Curtir

  8. O conflito começa a partir de como se concebe a etiologia. Enquanto a neurociência enfatiza o lado animal do homem, a psicanálise freudiana desde muito cedo se afastou da Natureza considerando-a inconsistente para a compreensão da dialética do desejo.
    “Se devemos falar da Natureza em termos humanos, teríamos de dizer que ela nos parece ser o que, no caso dos homens, chamaríamos de inconsistente”.
    Sigmund Freud
    Contribuições a um debate sobre a masturbação (1912).

    Curtir

  9. Prezado Thales Coutinho

    Sensacional seu video, parabéns pela clareza de pensamento!
    Vou comprar seu livro, gostei muito de conhecer
    No meu livro “O novo inconsciente”, dediquei uma sessão a analisar os argumentos de Mark Solms, que e o principal articulador da neuropsicanalise, e o autor de cerca de metade do artigo. Reinaldo Cristo comentou acima que fez uma fusão de dois artigos, um da mente e cerebro (Solms) e outro da exame.
    Solms admitiu em entrevista para a propria revista Mente e Cerebro que a Neuropsicanalise e uma jogada de marketing que tenta reunir o mercado da psicanalise com o mercado da neurociencia. Claro que ele defende essa interface, mas e muito forçado o argumento…
    Caro Reinaldo, obrigado pelo comentario positivo a respeito de meu livro e uma materia sua e muito bem vinda
    Forte abraço
    Marco

    Curtir

    • Eu que agradeço pelo feedback positivo, professor Marco. Li seu livro logo que foi lançado. Logo pelo título ele me chamou muito a atenção. Ele faz parte da lista que recomendo a todos os meus colegas que começam a cursar psicologia, junto com “Tábula Rasa” do Steven Pinker (porque é preciso imunizar as pessoas não apenas contra o meme deletério da psicanálise, mas contra o da psicologia sócio-histórica também). Um grande abraço! Ótima semana!

      Curtir

  10. Grande falácia! A “pesquisa” se baseia apenas num momento teórico de Freud, quando ele ainda tentava adequar sua teoria aos pressupostos científicos da época, onde só existe o que se pode ver, tocar, provar. Na verdade há 3 momentos teóricos da obra de Freud! A partir da obra “A Interpretação dos Sonhos”, Freud rompe claramente com a ciência positivista do seu século! Além do mais, o estudo sequer menciona a sequência dos estudos pós-Freud, onde milhares de autores se debruçaram, reformularam e ampliaram vários pontos da teoria freudiana. Ignora a existência da vertente lacaniana, todos os estudos que foram feitos depois de Freud! Ou seja, pegam uma parte inicial dos estudos de Freud, descontextualizam de todo o resto do seu construto teórico, em favor da própria Neurociência! Estudem psicanálise (de fato!) e verão que existe aí todo um construto teórica, com rigor suficiente, que não necessita da Neurociência, nem de outra ciência para comprovar sua eficácia e validade. Aliás, em que mundo vocês vivem? A psicanálise nunca perdeu a credibilidade, sempre existiu e se sustentou!

    Curtir

    • Prezada Jo,
      as pesquisas revelaram algumas proposições da relevância dos diagnósticos primeiramente conjectura dos por Freud. Claro que na época não havia a tecnologia de hoje que consegue fazer uma gravação de pensamentos e até as imagens de nossa mente, algo saído dos livros de ficção. Abs.

      Curtir

  11. Freud é uma farsa, e esse artigo é tendencioso, aceitem isso, não existe profecia, o que existe são muitos anos de estudo cientifico, A VERDADE Cientifica É Circunstancial, psicanálise não é ciência, mas há que se admitir que dentre os neurocientistas há psicanalistas intrusos tentando sempre confirmar as teorias de Freud, assim como já vi biólogo evolucionista cristão.

    Curtir

  12. Achei a matéria super interessante. Também acredito que ninguém precisa comprovar uma teoria que está viva há mais de 1 século. E antes de qualquer crítica a psicanálise, estudem e leiam muito além das obras freudianas. Acho que falar que Freud é uma farsa ou que psicanálise não funciona é uma bobagem muito maior do que qualquer coisa… Quem já ficou anos em análise, sabe que o processo e a maneira como tudo acontece dentro de um setting, como Freud teorizou sobre a psiquê humana, das relações do passado e o presente, entende a VERDADE, a VALIDADE e a IMPORTÂNCIA das teorias psicanalíticas e seus muitos autores, sendo FREUD um grande cientista e que faz com que até hoje tentem comprovar aquilo que de certa forma ele já pode nos mostrar.

    Curtir

  13. gostaria de avaliar a relação da indução transcraniana. há um campo magnético susceptível de promover ligações até hoje desconhecidas.

    Curtir

  14. César Ojeda Todo lo que un ser humano piense, sienta, recuerde, actúe, perciba, etc. tiene necesariamente que ser actividad cerebral diferenciada. Descubrir que el sistema límbico, por ejemplo, está activado en las emociones, no hace comprender nada de lo que son los celos. Hace décadas que se sabe que el efecto de la psicoterapia modifica el flujo sanguineo en ciertas áreas, de manera similar a los psicofármacos. Pero todo eso es perogrullo y obvio. La mayor parte de la actividad cerebral, como la de todos los órganos, es inconsciente. Esos mismos datos pueden comprenderse desde teorías psicológicas diversas, pero la diferencia es muy clara: no se trata de “demostraciones”. Podemos explicar y registrar la actividad cerebral y muscular en detalle, pero eso nada dice acerca de que voy caminando “a comprar el pan”. El titular del reportaje es engañoso. Por eso hay 450 formas de psicoterapia, y de las estudiadas, la mayoría producen beneficios (es decir cambios en el SNC), con independencia de la estructura teórica que sustente a cada una de de ellas. Lo propuesto por Freud es una buena teoría que vale por su coherencia interna, y no porque se activen ante ciertos recuerdos, ciertas áreas de la corteza prefrontal.

    Curtir

  15. Fui a um congresso mundial de neurociencia na universidade NY em Paris (sim, existe isso) e ali estavam os maiores neurocientistas do mundo duvidando da extensao de suas descobertas, e mostrando abertamente o atoleiro epistemologico em que se encontravam. Mas os que conhecem pouco se entusiamam como se fosse a ultima solucao para tudo. A ignorancia eh afoita. A ciencia eh calma e aceita seus limites p ensejar as questoes e as duvidas que a fazem progredir c muita dificuldade. Kandel, premio Nobel, neurocientista que estabelece relacoes entre esta e o campo da linguagem computacional, admira a psicanaise, e inclusive se submeteu a ela com excelente resultado p sua vida.Kandel nao era um tolo. Id ego e superego eh uma pequenissima parte da teoria freudiana, chamada de segunda teoria topica do aparelho psiquico. E nao significa quase nada, a nao ser um modelo explicativo, corroboravel ou nao. Ha muitas teorias freudianas dentro de Freud e depois dele.
    A forma como nos adoecemos psiquicamente, para alem dos sintomas visiveis, o grande sofrimento por que passa a humanidade, faz parte de uma equacao complexa, entre a incidencia de cada contemporaneidade e suas formas de subjetivacao. Por tanto o saber psicanalitico e neurocientifico, os estudos geneticos, e epigeneticos, tem que andar, e nao ser objeto de discussao num nivel tolo de FlaFlu.

    Todos estes estudos precisam de uma vida dedicada a clinica para que tenham algum tipo de desenvolvimento. E ha muita coisa a ser feita nestes campos que se entrelacam. E a histeria de conversao eh uma sindrome com diagnosico diferencial complexo dos sintomas ditos psicossomaticos.
    aqui mais um artigo sobre esta questao, mas c um titulo perversamente enganoso. Infelizmente temos que lidar com o oportunismo e a ignorancia .http://www.lavanguardia.com/lacontra/20160211/302069827488/el-poder-de-la-mente-sobre-el-cuerpo-es-ilimitado.html

    Curtir

  16. Acho que é um pouco tendencioso falar que o inconsciente foi comprovado como Freud escreveu. Pois hoje, o inconsciente tem comprovado é um sistema autônomo do cérebro e também os níveis de memória mais baixos. Já a teria de Freud, que li toda, fala sobre o inconsciente reacalcado, reprimido, etc. Neste ponto são bem diferentes e há até terias testadas que mostram o contrário. A psicologia sócio-história afirma que não lembramos da nossa primeira infância pq não falávamos e a memória é constituída da linguagem, Freud diz que o conteúdo foi recalcado pelo superego contra os desejos infantis de ordem agressiva e sexual…
    Claro que a psicanálise moderna e pós-freudiana se baseia nos acertos do Freud, mas a psicanálise canônica ainda não está nem perto de ter um aval científico que foi comprovada e funciona.
    A primeira parte do texto também agrega a psicanálise moderna, que como eu disse, realmente ajuda e nasceu dos acertos do Freud e foi reformada por inúmeros outros autores…

    Curtir

  17. Concordo com essa bateria de testes que – para mim tendem a duas coisas – corroborar Freud e sua Escola Psicoanalítica em muito do que ele nos deixou em face de Nietzsche (irmã dele) que levou ao conhecimento científico ao mundo. E por outro lado vender mais equipamentos para aumento do faturamento. Mas creio que todas as escolas da psicologia – desde que Freud assistiu o enfrentamento de Friedrich Wilhelm Nietzsche com seu Neurologista. Não só a Escola da Psicanálise – mas outras – antes e depois de Friedrich. Deixaram legados importantes. Nada vai substituir o tratamento psicológico tradicional – cada um profissional com a sua metodologia de trabalho na relação orientador/paciente (…)!

    Curtir

  18. Eu acho que há alguns conceitos psicanalíticos citados nessa reportagem que são mal entendidos. Primeiro, repressão não
    é apenas reprimir um evento doloroso. Repressão pode ser também você estar com outra pessoa, sentir um desejo sexual e não falar nada. Ou sentir raiva de alguém e não externalizar essa raiva. Tudo isso é repressão em termos psicanalíticos. Aliás você pode sentir-se deprimido ou com raiva sem saber exatamente porque está sentido isso, porque o motivo está tão reprimido que você só sente seus efeitos na consciência.
    E é preciso lembrar que o ponto principal da psicanálise é que a consciência é limitada, é uma parte pequena da mente humana. A consciência e nossa percepção são bem limitadas, inclusive Freud se espanta como nossa percepção pode ser facilmente nganada. Há vários estudos comprovando isso como podemos ser enganados em nossa percepção de mundo e na nossa consciência. O melhor exemplo é o teste de Rorschach: você olha uma mancha e responde o que vê. A partir dali, se faz uma análise da personalidade da pessoa. Qual é a resposta “certa”, digamos assim, do teste? È que é uma mancha, só isso. O teste funciona porque ao analisar uma percepção e construir uma história nossa mente constrói de acordo com uma determinada estrutura, que iremos chamar de personalidade. Toda nossa relação com o mundo se dá com nossa mente adaptando ele a essa estrutura. Por isso que se você acha o mundo um lugar frio e ruim, cheio de pessoas
    más, você está com uma estrutura de pensamento depressiva. E isso aparece quando você tem que criar uma história sobre uma mancha.

    Freud se distancia da neurologia não porque não há uma base biológica para os problemas mentais, mas porque ele vê que o caminho mais frutífero seria por outra via. Talvez mais próximo da filosofia. Acho interessante lerem a retomada de Freud que Lacan vai fazer, exatamente porque na época os conceitos de Freud eram tomados de forma rasa, muito simplória.

    Pegue os conceitos de inconsciente, por exemplo. A ciência fica estudando o cérebro, mapeando-o, buscando comprovar ou não se o inconsciente existe. Mas se for pelo viés da filosofia, fica mais fácil entender. O amor, por exemplo, é algo
    fundamental para nossa vida, algo que todos nós buscamos e estamos sempre falando dele. O único problema é que o ser humano nunca conseguiu definir o que é o amor. Há milhares de livros de filosofia sobre o amor, nenhum com um conceito
    definido. Assim também é o conceito de verdade, de justiça, etc.

    Para entender o conceito de inconsciente, não precisa ir muito longe, basta pensar o que significa para você o seu pai, sua mãe, seu filho? O amor pelo seu filho, você consegue explicar, teorizar racionalmente tudo que sente por ele? Isso mostra
    como as coisas mais importantes da vida e que nos guiam, nós não podemos conceitualizar nem racionalizar logicamente.
    Os próprios rumos da nossa vida, nossa consciência não consegue prever. Conseguimos saber com exatidão como será nossa vida daqui a 10, 20 anos?

    Essa dicotomia entre neurologia versus psicanálise tem suas raízes na dicotomia corpo versus mente, corpo versus alma.
    Também há milhares de livros de filosofia sobre isso, vários pensadores já tentaram desvendar esse mistério. Sabemos que sem cérebro não há mente humana, psiquê, mas a ligação entre ambos é insondável.

    Um dos grandes truques, digamos assim, da ciência é quando mostram essas pesquisas sobre o cérebro, novas descobertas da neurologia, dos processos mentais, etc, é a de falar de realidade como se fosse uma coisa bem definida.
    Ou seja, o sujeito na sua vida trabalha e estuda, lida com objetos do seu mundo e com pessoas, como se a percepção do mundo fosse cristalina para a mente humana e a mente humana fosse uma espécie de “trabalhador braçal” lidando com
    objetos da realidade.
    Ora, isso é totalmente contrário ao que diz a filosofia. O que é o ser humano, o que é a existência humana, isso é objeto de muitos estudos e divagações. Veja Sócrates, Nietszche, Hegel, Sartre, Heidegger, só pra citar alguns. Veja como definir o
    que é a realidade, o que é existência, é algo muito complexo.

    Freud se deparou com isso quando foi tentar definir o que é princípio de realidade. Onde começa a realidade e termina nossas fantasias? Quando me relaciono com alguém, onde termina o que eu imagino que aquela pessoa está pensando e começa o que ela realmente está pensando? Lacan leva isso muito mais além, quando vai falar do “objeto a”, a realidade, o
    real.

    Por exemplo, na relação de uma pessoa com seu celular, há toda uma estrutura, todo um conjunto lógico de como usar seu celular, como trabalhar com ele. Você tem que entender como funciona um ícone, como digitar números, etc. Toda uma
    construção lógica que você usa para se relacionar com esse objeto. A realidade do celular, é que ele é um amontoado de metal e vidro. Isso seria a realidade última do que ele realmente é. Essa construção desse raciocínio lógico de como usar

    um
    celular, o que ele significa para nós, seria a estrutura da linguagem, como definiu Lacan.

    Lacan era um psiquiatra, estudou neurologia a fundo assim como Freud. Se ele foi em direção a filosofia, foi porque a questão mais importante de um tratamento é a direção de cura. Você não enche um paciente de drogas para ele agir
    “normal”( aliás, em psicanálise se fala que normal é a norma, aquilo que se instituiu com sendo o correto), para ele ser aceito pelos outros, pela família, para ter emprego e trabalhar sem reclamar, etc. A direção de cura é buscar o que é o melhor para
    o sujeito, para aliviar o seu sofrimento, não simplesmente encaixá-lo nas normas sociais. Não é simplesmente manter o sujeito sedado para ele trabalhar de segunda a sexta para ganhar seu salário mínimo.

    Lacan foi um dos que humanizou a apresentação de pacientes no hospital psiquiátrico. Apresentação de pacientes era um paciente ir lá, falar de sua vida, seus problemas mentais e um grupo de psiquiatras renomados ficavam discutindo o caso e a
    melhor terapêutica. Primeiro, Lacan tratava o paciente como uma pessoa, um ser humano, que ia lá falar de sua existência, prestar um testemunho da sua vida. Depois o paciente também participava da discussão e dava sua opinião. Como Lacan
    disse em um dos seus seminários “toda vida humana é em si um milagre da existência”.
    Assim, se um paciente está depressivo não é apenas dar antidepressivos para ele e os sintomas desaparecerem, mas é descobrir porque ele está depressivo. Geralmente o próprio paciente desconhece a origem de sua depressão, isso é algo
    do inconsciente.

    Por último se fala que a psicanálise está desacreditada, que o método de Freud está superado, etc. Primeiro, Freud concebeu seu método como “fale tudo que vem a sua cabeça”. Freud fez isso para poder ver os processos mentais em sua totalidade, ver como a mente funcionava como um todo. E a gente pergunta, se não for no divã do seu psicanalista, onde

    mais você vai poder falar livremente? Não existe outro espaço igual, talvez no confessionário, mas ali você vai ser julgado, o que já lhe inibe muitos processos mentais. Você não vai xingar o padre com palavrões. Mas na sua análise você pode xingar seu analista, faz parte da transferência. Em nenhum outro espaço social você tem essa liberdade. Você não vai dizer pra sua esposa que teve pensamentos libidinosos com a melhor amiga dela, não vai dizer para seus amigos que as vezes acha eles um bando de idiotas, não vai chamar seu chefe de imbecil.

    Isso é o que na análise se chama da catarse, um espaço de catarse, de se libertar. Mas a terapêutica acontece mesmo quando você está falando a seu analista e você se dá conta que o seu analista deve estar pensando que você é burro, que
    lhe odeia, ou que seu analista vai ficar enojado de você por suas fantasias sexuais. É o momento em que o analista devolve isso ao paciente, ou seja, esse analista imaginário dele, o analista devolve como “olha isso é seu, você que está projetando
    essas coisas em mim”. Isso é o inconsciente, ou seja, aquilo que minha consciência não admite ela joga para o outro, ela cria

    uma psiquê lá no lugar do meu semelhante. Eu imagino que o outro me odeia, me ama, me despreza, me idolatra, etc. Lacan vai falar no fantasma, um ser imaginário que eu coloco lá no lugar do outro.
    Uma bela metáfora disso são as pessoas que falam com seus cachorros, que atribuem pensamentos da lógica humana para seus cachorros, algo do tipo “ele adora aquele programa de tv, sabe a hora que vai começar!” ou “meu cachorro não gostou
    de eu lhe dar banho, ficou magoado!”. Há outros exemplos disso, como uma pesquisa psicológica que demonstra que as pessoas se reconhecem facilmente como vítimas de bullying, mas não quando são as que praticam. Ou naquele fenômeno brasileiro de falar de corrupção e dizer que “todos são corruptos e canalhas, exceto aquele que vos fala”.

    O método da psicanálise se baseia em que muitas coisas que não queremos ver em nós, pensamentos que não queremos aceitar, nós transferimos para os outros. Assim eu crio esse ser humano que vive pela lei do Gérson “o negócio é levar vantagem em tudo”, transfiro para o outro e me posiciono como aquele que é contra essa lei egoísta. Quando o seu analista lhe devolve isso na análise, você percebe que você inconscientemente está se guiando por uma imagem desse ser humano egoísta, que quer levar vantagem em tudo. Sua consciência pode dizer que você não é assim, ou pode aceitar que todos
    são assim, então você também vai agir assim. Não importa a posição da sua consciência. Inconscientemente, você assumiu que muitos seres humanos ou todos se guiam pela lei de Gérson e pensa que isso é uma verdade no Brasil. Aliás você nem
    questiona isso, você se guia por esse pressuposto sem se dar conta, inconscientemente. Se isso é verdade ou não, não é o importante, o importante é o paciente se dar conta qual é os pressupostos que estão guiando ele de forma inconsciente.

    Pense em um sujeito que era católico fervoroso, depois perdeu a fé e passa o tempo todo a atacar a igreja, falar mal da religião. Ele continua tendo como coisa mais importante na vida dele a religião. Deus ainda é a coisa mais importante para
    ele. Mesmo que ele vire um ateu e fique o dia todo criticando Deus, não importa, Deus é a coisa mais importante para ele pois ele se dedica o dia todo a criticá-lo. Na sua consciência, ele se posiciona ora como crente, ora como ateu. No seu
    inconsciente, Deus e a religião tem um significado para ele muito importante, mesmo que ele nem consiga colocar em palavras. È importante porque ele dedica toda sua vida a isso. Toda sua vida é guiada por um significado inconsciente de religião, mesmo que ele se diga ateu.

    Lacan cita isso no seminário sobre o eu na teoria de Freud, onde o eu na mente é um objeto e nem mesmo é um objeto privilegiado. Para um crente, Deus é o objeto mais importante de seu mundo, mais do que ele mesmo. Quando
    a gente vai em uma academia para ficar em forma, o objeto mais importante é a imagem de um corpo perfeito, sarado. é essa imagem que nos guia, inconscientemente, porque não nos damos conta. Nosso ego na academia é apenas como um
    corpo deformado que vamos tentar moldar a um corpo ideal. Nós sofremos, sentimos dor, nós maltratamos nosso corpo e nosso ego dizendo que ele é mole e fraco, porque a coisa mais importante na academia é essa imagem do corpo perfeito, é ela que guia todos nossos atos na academia, não nossa consciência ou nosso ego.

    Isso seria a grosso modo como o inconsciente está presente em nossas vidas e como se busca a terapêutica em uma análise psicanalítica. Lembrem-se que a maior descoberta de Freud é que o eu não é o centro do homem, não é a consciência que nos guia. Ou como diz Lacan, existo onde não penso. Por exemplo, quando você vê uma mulher e se apaixona por ela, tudo que ela significa, tudo que você imagina que ela seja, tudo que você imagina de alegrias que ela vai lhe proporcionar, é ali que está o centro do seu mundo, é em torno desse imaginário que você vai estruturar todo seu comportamento. Seu eu, sua consciência, é como um barco que no entanto é guiado pelo farol que é representado por tudo que você imagina que essa mulher amada seja.

    Curtir

  19. Freud mudou de opinião, por volta de 1905, sobrr sua visão biologizante das estruturas do ego. Manter a influência positivista sobre a psicanálise e dizer que medicamentos agem da mesma forma sobre as neuroses e, quiçá, psicoses é afogar a psicanálise em suas bases e de uma imensa irresponsabilidade na transmissão de seu texto para o público.

    Curtido por 1 pessoa

  20. Excelente artigo e referências neurocoentificas super atualizadas. Como professora e pesquisadora nas Neurociências cognitivas na UTP do Paraná tenho desenvolvido com meus alunos de mestrado e doutorado, pesquisa que envolve a interferência digital virtual na aprendizagem de seres humanos. Desde meu primeiro achado de que o cérebro tende a “mudar de hemisfério” quando de fato aprende, uma vez que transfere dados para o direito, sob forma de sinapses, observamos que as memórias podem ser guardadas como simplesmente memórias ou podem virar subsunçores (pré conhecimentos) para outras, como partes para novos significados. Se as considerações Freudianas (de alguma maneira) podem estar sendo comprovadas tb de forma anátomo fisiológica, quem sabe poderemos pensar tanto em uma espécie de “controle” de supressão de memórias que nos impedem de aprender algo, assim como por outro lado, criarmos um processo consciente de retroalimentação de memórias boas, ou do prazer, e que portanto poderiam nos proporcionar novas aprendizagens, e expansão cerebral? Além disso, se inconscientemente somos movidos pelos desejos, que tal providenciarmos energia suficientemente (sob forma sináptica, de recordações e até mesmo (dos sistemas de crenças) para materializarmos “processos de cura de doenças”, de rejuvenescimentos saudáveis, de plasticidade cerebral e corporal, e de benefícios que inclusive se multiplicam, se em cooperação?? Susane Garrido.

    Curtido por 1 pessoa

  21. Enfim começam a entender que o corpo é permeável e suscetível à linguagem, ou seja, que o inconsciente opera à revelia dos pet scanners. Descobrir Freud no século XXI é melhor do que nunca o ter feito. Só falta entender que uma análise não se faz com condicionamentos linguísticos nem com sujeitos ligados a máquinas.

    Vanisa Moret Santos
    psicanalista

    Curtir

  22. Embora eu não seja uma profissional da “área psi”, estou lendo cuidadosamente o artigo em questão, e admirando a linguagem clara e objetiva em que o autor se expresssa. O próprio Freud, ao contrário de Lacan, por exemplo, escrevia com profundo conhecimento científico e linguístico. Quem o lê no idioma alemão consegue compreender bem muitos de seus conceitos e teorias.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s