Englert e Higgs ganham o Nobel de Física 2013

O prêmio nobel de físca 2013 vai para Englert e Peter Higgs

O físico Peter Higgs (Foto: David Moir/Reuters)
Englert em foto de junho deste ano (Foto: AFP)

Milhares de cientistas estiveram envolvidos na busca pelo bóson de Higgs, a maior descoberta da geração atual na física de partículas. Mas para o comitê do Prêmio Nobel de Física, dois nomes foram mais importantes. Em um anúncio feito hoje (8 de outubro) em Estocolmo, Peter Higgs da Universidade de Edimburgo, Reino Unido, e François Englert da Universidade Livre de Bruxelas foram nomeados ganhadores do Nobel pelo desenvolvimento da teoria que é agora comumente chamada de mecanismo de Higgs: o processo pelo qual um campo permeando o espaço dá massa a outras partículas fundamentais, e que implica na existência do bóson de Higgs. Sobre a escolha do comitê, “Sinceramente, eu teria feito a mesma escolha”, diz John Ellis, físico teórico do CERN, o laboratório de física de partículas europeu em Genebra, na Suíça.

A existência do bóson foi anunciada em meio a aplausos no CERN no dia 4 de julho do ano passado, depois de ter sido produzido a partir de colisões de altas energias no acelerador LHC que custou 3 bilhões de euros (US$ 4,1 bilhões). Teria sido muito complicado premiar os experimentais com o Nobel, segundo Ellis, que se juntou a outros teóricos do CERN para comemorar o anúncio do premio. “O trabalho pioneiro de Englert e Higgs mereciam esse prêmio”, diz.

“Estou extremamente feliz pelo reconhecimento deste prêmio extraordinário”, diz Englert. Já Higgs, que é notoriamente modesto e sofreu um ataque de bronquite no mês passado, esteve indisponível para entrevistas. Os dois ganhadores se encontraram pela primeira vez no CERN.

O bóson de Higgs era a peça que estava faltando no quebra-cabeça do modelo padrão da física de partículas, que descreve todas as partículas e forças fundamentais conhecidas, exceto a gravidade. O próprio bóson de Higgs é a menor perturbação possível no campo de Higgs, que dá massa para partículas, incluindo elétrons, quarks, e os bósons W e Z que são as mediadoras da força nuclear fraca.

A ideia foi desenvolvida na década de 60, quando físicos tentando descrever as forças fundamentais estavam tendo que lutar com as “embaraçosas partículas sem massa que estavam flutuando em suas teorias”, como colocado por Ellis. Em 1964, seis físicos trabalharam de forma independente no modo como um campo poderia resolve o problema. Robert Brout (que faleceu em 2011) e Englert foram os primeiros a publicar, em agosto de 1964, seguidos três semanas depois por Higgs – o único autor, até então, a introduzir o pesado bóson de Higgs que a teoria implicava. Tom Kibble, Gerald Guralnik e Carl Hagen vieram em seguida. “Quase ninguém deu atenção”, diz Ellis, principalmente porque os físicos não tinham certeza de como fazer cálculos usando tais teorias. Foi apenas depois de 1971, quando Gerard ‘t Hooft resolveu o problema da matemática, que a citações dispararam e as buscas pelo Higgs começaram para valer.

Tantos teóricos estiveram envolvidos que Higgs se refere ao mecanismo como mecanismo de ABEGHHK’tH (Anderson-Brout-Englert-Guralnik-Hagen-Higgs-Kibble-’t Hooft). Mas esta lista de nomes não é anda comparada a legião de experimentais que se juntaram na tentativa de rastrear o bóson, com aceleradores de partículas cada vez mais poderosos que produziram seus próprios prêmios Nobel com o passar dos anos.

“Isso foi algo realmente incrível que aconteceu na minha vida”, disse Higgs no auditório do CERN quando a partícula foi anunciada.

Alan Walker, um colega do Higgs de Edimburgo, disse: “Aquela dia foi para os experimentais. Eu acho que hoje é para os teóricos”.

Fonte: Universo Racionalista

Referências:

http://prl.aps.org/edannounce/2013-nobel-prize-in-physics

http://blogs.physicstoday.org/newspicks/2013/10/franois-englert-peter-higgs-share-physics-nobel/

http://home.web.cern.ch/about/updates/2013/10/CERN-congratulates-Englert-and-Higgs-on-Nobel-in-physics

Cientistas divulgam dados que apontam para a existência do Bóson de Higg’s

Bozon de Higgs
Gigantesco detector Atlas do LHC. (CERN – divulgação).
Estrutura do túnel de 27 km do LHC, construído na fronteira entre a França e a Suíça (Foto: Cern/Divulgação).
Estrutura do túnel de 27 km do LHC, construído na fronteira entre a França e a Suíça (Foto: Cern/Divulgação).

Pesquisadores do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN) anunciaram na quinta-feira (14/03/2013) a descoberta de uma nova partícula, mas ainda precisam de tempo para confirmar que se trata mesmo do arredio Bóson que completaria o Modelo Padrão.

Num feito que ficará para sempre marcado na história, físicos do CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares) anunciaram nesta quinta-feira terem encontrado uma nova partícula, com características compatíveis com o almejado bóson de Higgs.

A descoberta, feita com dois instrumentos do LHC (Grande Colisor de Hádrons), o maior acelerador de partículas do mundo, foi anunciada numa teleconferência na sede do CERN, em Genebra (Suíça), transmitida ao vivo para a abertura da 36ª Conferência Internacional em Física de Altas Energias (ICHEP), em Melbourne, Austrália.

O bóson ganhou esse nome em homenagem ao físico escocês Peter Higgs, um dos vários cientistas que desenvolveram a teoria de como as partículas poderiam ter massa, mais tarde incorporada ao Modelo Padrão.

Trata-se da mais completa teoria física já desenvolvida, que explica em detalhes como funcionam todas as partículas e forças da natureza, exceto a gravitação (que ainda é província exclusiva da relatividade geral). Praticamente tudo nele já havia sido experimentalmente confirmado anteriormente, exceto o bóson de Higgs. É a última peça do quebra-cabeça.

“A descoberta do Higgs coroa um dos maiores feitos da humanidade, desde sua concepção intelectual, baseada em noções de beleza e simetria, aos incríveis avanços tecnológicos necessários para materializar esta descoberta”, diz Ronald Shellard, pesquisador do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) e vice-presidente da SBF (Sociedade Brasileira de Física).

Questões em aberto

Os pesquisadores das colaborações CMS e ATLAS – nomes dos dois experimentos responsáveis pelo achado – ainda são cautelosos ao afirmar que a nova partícula é mesmo o Bóson de Higgs.

Os dados mostram além de qualquer dúvida que há uma novidade: uma partícula com energia de 125 GeV (giga-elétronvolts) que decai, entre outras possibilidades, em um par de Bósons Z (já conhecidos), que depois se dissolvem em outras partículas. É o resultado desses decaimentos sequenciais que é observado nos detectores do acelerador. A partir dele, os cientistas fazem a “engenharia reversa” do processo para identificar as características originais da partícula.

“Apesar de os eventos [de colisões de partículas no acelerador] sugerirem que estejamos diante do Bóson de Higgs, a confirmação de que se trata realmente da partícula predita requer mais medidas comparativas”, afirma Sérgio Novaes, físico da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e membro da equipe do CMS.

Concorrência

Na segunda-feira, os americanos chegaram a divulgar suas últimas análises dos velhos dados, que mostravam a indicação de uma partícula com as características do Bóson de Higgs e uma energia entre 115 e 135 giga-elétronvolts (GeV), com 90% de confiança.

Entretanto, ainda estava longe do grau de exigência da comunidade para tratar o resultado como uma descoberta. Somente, agora, com os resultados do LHC é possível cravar a existência da nova partícula, com energia de 125 GeV.

Fim ou recomeço?

A descoberta do Higgs sempre foi anunciada como principal meta para a construção do LHC. Agora que ele provavelmente foi encontrado, pode ficar para o público uma sensação de vazio. Mas o sentimento não é compartilhado pelos físicos.

“Em primeiro lugar, há um equívoco em focar muito no Bóson de Higgs”, afirma Shellard. “Todos concordamos que o Bóson de Higgs não vale US$ 10 bilhões. Essa máquina, o LHC, foi concebida para explorar a natureza! A descoberta do Higgs coroa o maior feito intelectual da história da humanidade até agora, uma teoria que explica uma infinidade de fenômenos naturais. Mas, para o LHC, ela é apenas o começo.”

Brasil no CERN

Para fazer parte dessa aventura de desbravamento de maneira mais intensa, o Brasil discute desde 2010 a possibilidade de se associar ao CERN, e uma nova etapa acaba de ser cumprida para que isso se torne realidade.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, já aprovou o envio de um documento que descreve as qualidades técnicas e científicas do Brasil e que dá andamento à negociação.
“Demos um passo importante para que o Brasil seja um país protagonista das grandes descobertas científicas”, diz Raupp. “Essa ação também terá como consequência mobilizar a indústria para participar dos avanços tecnológicos significativos que são gerados na interação com o CERN.”

As conversas começaram ao final do governo Lula, sob a batuta do então ministo Sergio Rezende, mas ficaram paradas durante o ano passado por conta da crise econômica. Agora voltaram a avançar.

Assim que o Conselho do CERN receber o relatório, irá nomear uma comissão para verificar pessoalmente as instalações nacionais de pesquisa.

Uma vez que o Brasil seja aceito como membro, o acordo a ser assinado entre as partes ainda precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional para entrar em vigor.

Mas os físicos brasileiros já se animam com a perspectiva de fazer parte desse esforço para desvendar os mistérios que residem além das teorias científicas consagradas, acessíveis através das colisões geradas pelo LHC.

Créditos: SBFISICA